Normalmente, as pessoas acham que é preciso aguardar uma grande tragédia para ir ao psicólogo. É um último recurso quando já não se sabe o que fazer. Nos serviços de saúde, habitualmente é o fim da linha quando nenhuma das outras especialidades consegue esclarecer ao certo o que se passa com aquela pessoa ou não é capaz de dar respostas suficientemente eficazes.

Entre o místico e o vago, o psicólogo é também ele vagamente conceptualizado como uma espécie de mágico que faz as coisas funcionar com palavras. Na outra vertente, há a ideia do charlatão que «só diz umas coisas – e de que é que isso serve?».

A verdade é que não é preciso que todo o mundo esteja a desmoronar-se para procurar um psicólogo. E entre os requisitos também não consta o vulgo «ser maluco» – aliás, normalmente quem procura um destes técnicos está a tentar evitar sê-lo.

Todas as faixas etárias podem usufruir de diferentes tipos de ajuda por parte de um psicólogo. O trabalho é feito pelo próprio, mas numa parceria em que se reflecte sobre os comportamentos, aquilo que os motiva, as suas consequências e significados e, no limite, a sua adequação à realidade. Então para que é que está lá o psicólogo? Para trazer um novo prisma sobre os assuntos em que a pessoa já pensou cinco mil vezes ou para levá-la a pensar em assuntos em que nunca pensou – nomeadamente sobre si mesma.

Comecemos pelo início. Recentemente tem havido uma tendência marcada nos pedidos de consulta para crianças ligada aos receios do fantasma da hiperactividade e das dificuldades de aprendizagem. Ainda que por vezes a sinalização de casos destes seja falso alarme, há uma variedade de situações que trazem uma criança ao consultório sem que isso faça dela um adulto que vai estar «estragado»: situações de imaturidade ou «medo» de crescer, alterações do comportamento na sequência da perda de uma pessoa importante (importa lembrar que as crianças maioritariamente não são capazes de dizer o que sentem por palavras, agindo as suas emoções), inibição das aprendizagens escolares por questões afectivas, fazer chichi na cama, agressividade excessiva entre irmãos… Portanto, não é necessário ver uma criança como um ser completamente indefeso que fica «traumatizado» por todas as contrariedades com que se defrontar, nem esperar que ela pegue fogo à casa para pensar que se calhar está na altura de pedir ajuda a um especialista.

Os adultos são a população que com mais frequência recorre ao gabinete do psicólogo, quer seja pelos clássicos da depressão e da ansiedade, quer seja pelo não menos frequente «doutor, não sei o que tenho». Situações de divórcio, luto ou dificuldade crónica em perguntar direcções a uma pessoa na rua, conflitos familiares ou de trabalho, dificuldades sexuais, síndroma do ninho vazio, todas estas são circunstâncias em que a pessoa pode sentir-se desamparada ou em que o rumo que a sua vida tomou não coincide com o projecto de vida que tinha imaginado. O psicólogo pode aqui ser um aliado que ao mesmo tempo dá apoio e incentiva a pessoa a crescer – descobrir em que sentido é a viagem proposta.

O avançar da idade – e da vida – traz consigo características muito próprias, como sejam o isolamento familiar, a morte do companheiro de toda a vida ou o sentimento de que se é menos útil ou dinâmico do que se gostaria de ser – porque não aprender uma actividade nova? Assim, as problemáticas do idoso estão muito ligadas à saúde que se vai fragilizando, mas não se esgotam aí. É importante apoiar e ajudar os idosos a adaptar-se às rasteiras que o seu corpo lhes vai pregando, mas continua neles a haver vida interior e questões a trabalhar.

Deste modo, em todas as idades, o psicólogo pode ser um aliado importante para nos ajudar a perceber a razão de ser dos problemas com que, numa ou outra etapa da vida, todos nos deparamos, e a ultrapassá-los; não o fará por nós, mas vai-nos ajudar a encontrar novas ferramentas para a vida. Mais do que desvalorizar as nossas próprias dificuldades, é importante perceber que pedir ajuda não é sinal de fraqueza – é sinal de inteligência.

 

Texto por Inês Marques Batata, Psicóloga Clínica

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